Carta 15: Brasil na Contramão: Resiliência em Meio ao Caos Global
- Leonardo Strambi, CFA

- há 7 horas
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Brasil na contramão: resiliência em meio ao caos global
Clientes e amigos,
Março foi um mês que redefiniu o ambiente de mercado. O que começou como um choque geopolítico localizado, com a escalada militar entre Estados Unidos, Israel e Irã (em particular a destruição de infraestrutura ligada ao programa nuclear iraniano e restrições ao Estreito de Ormuz), converteu-se rapidamente em evento de reprecificação global. A entrada dos Houthis no conflito, com ataques no Mar Vermelho, adicionou um segundo corredor de risco ao transporte de energia, e as sinalizações oscilantes de Trump entre ultimatos e disposição para negociar intensificaram a volatilidade. O mercado deixou de operar com base em fatos e passou a precificar probabilidades.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve os juros inalterados, reconhecendo que a inflação permanece acima da meta e sinalizando que não combateria um choque de oferta com aperto adicional. Os PMIs de março confirmaram perda de dinamismo no setor de serviços. Na China, uma recuperação marginal de atividade, mas sem força suficiente para alterar o quadro global.
Mercados globais
O impacto nos ativos americanos foi relevante. O S&P 500 recuou 5,0% em março, acumulando queda de 4,6% no ano, enquanto o Nasdaq 100 caiu 4,8% no mes e 6,0% no acumulado de 2026. A dispersão setorial foi intensa: energia foi o unico destaque positivo (+10,4%), beneficiada pelo choque no petroleo, enquanto industriais (-8,4%), saude (-8,1%), consumo (-7,4%) e materiais (-6,9%) lideraram as perdas.
No mercado de renda fixa, a combinação de choque de commodities e revisão das expectativas de política monetária resultou em forte abertura das taxas ao longo de toda a curva. A Treasury de 10 anos encerrou março em 4,32% (+38 bps no mês), a de 2 anos em 3,79% (+42 bps) e a de 30 anos em 4,91% (+30 bps). O Bloomberg US Aggregate Index caiu 1,76% no mês. No crédito, os spreads de high yield americano ampliaram para 317 bps (ante 291 bps) e os de investment grade para 89 bps (ante 84 bps), movimento que encontrou eco no mercado de crédito privado brasileiro, como detalhamos adiante.
Em termos de valuation, o múltiplo P/L do S&P 500 recuou para 19,4x (ante 21,4x), refletindo a correção dos preços. Importante notar que as projecoes de lucro seguiram sendo revisadas para cima, com o EPS estimado subindo para US$ 373 em 2026 e US$ 415 em 2027, sugerindo que o otimismo estrutural com resultados, especialmente ligado a inteligência artificial, permanece intacto. A correção de março foi de múltiplo, não de fundamentos.
Entre as commodities, o ouro recuou 11,6%, ajuste após ganhos expressivos nos meses anteriores e reflexo do fortalecimento do dólar (DXY +2,4%). O cobre caiu 6,5%, sinalizando cautela com o crescimento global. O dólar frente ao real avancou 1,1%, encerrando o mês em R$ 5,18.
Mercado doméstico
Nesse ambiente, o Brasil apresentou uma resiliência notável. O Ibovespa encerrou março com desempenho significativamente superior ao das bolsas americanas e europeias, consolidando o país como destino preferencial dentro do universo emergente. Os fundamentos explicam essa dinâmica: o Brasil é exportador líquido de commodities, produtor relevante de petróleo e oferece o diferencial de juro real mais elevado da região. Essa combinação atraiu fluxo estrangeiro expressivo na B3, com entrada acumulada de R$ 56,5 bilhões no ano até meados de abril, segundo dados do Itaú BBA. Investidores institucionais locais seguiram na ponta vendedora, o que sugere que a sustentação do mercado continua concentrada no capital externo.

Do ponto de vista setorial, o desempenho no ano permanece liderado por Óleo e Gás, com alta de 55,6%, seguido por Commodities e Não-Bancos Financeiros. Utilidades e Bancos têm se destacado nas últimas semanas, beneficiados pela busca por previsibilidade de resultados em ambiente de volatilidade elevada. Na ponta negativa, Papel e Celulose acumula queda no período, penalizado pela dinâmica desfavorável de câmbio e demanda global.
Em termos de valuation, o Ibovespa negocia próximo a 10,3x lucros estimados para os próximos 12 meses, abaixo da média histórica de 10 anos, o que sinaliza uma assimetria favorável para quem tem horizonte adequado.
Renda Fixa e Crédito Privado
No campo da política monetária, o Copom reduziu a Selic em 25 pontos-base, levando a taxa a 14,75% ao ano. Essa foi a primeira decisão de afrouxamento sob a gestão de Gabriel Galípolo. O comunicado trouxe uma mudança relevante de linguagem: o Banco Central removeu o forward guidance e adotou postura de dependência de dados, condicionando a continuidade dos cortes à evolução do cenário externo, em especial ao comportamento do petróleo e seus efeitos sobre a inflação. O IPCA-15 surpreendeu para cima, pressionado por alimentos e despesas pessoais, mas os núcleos de serviços mostraram desaceleração, sinal de que a piora inflacionária ainda se concentra em repasses pontuais, não em desancoragem generalizada.
No mercado de crédito privado, março marcou um ponto de inflexão relevante. Após mais de 12 meses de estabilidade nos spreads, o mercado saiu de um equilíbrio sustentado por inércia e fluxo para um ambiente mais sensível a risco. Observou-se uma abertura generalizada superior a 10 bps no crédito corporativo tradicional, mais acentuada em emissores com maior grau de desafio operacional. O movimento foi catalisado pelos pedidos de recuperação extrajudicial de companhias de marcas conhecidas (Raizen e GPA), portanto não se trata de um choque sistêmico, mas de um ajuste de percepção que, em ambiente de spreads comprimidos, acabou contaminando a precificação de risco de outros emissores.

Nas debêntures incentivadas, o movimento foi ainda mais intenso. A desaceleração das captações nos fundos de infraestrutura retirou um suporte importante de demanda, e a abertura de spreads no mercado secundário superou 30 bps, levando os níveis de volta aos patamares de outubro de 2025. Em paralelo, a reabertura da curva de juros ampliou o impacto de marcação a mercado nas estratégias não hedgeadas.

A curva de juros, por sua vez, reflete a incerteza sobre o ritmo do ciclo de afrouxamento. Embora os juros reais no Brasil permaneçam no nível mais restritivo da última década, a dependência de dados adotada pelo Banco Central significa que qualquer persistência do choque energético sobre a inflação pode limitar o espaço para cortes adicionais no curto prazo.

Posicionamento
Em relação aos portfólios, mantemos uma postura construtiva, porém cautelosa quanto ao dimensionamento das posições. A combinação de valuations comprimidos, diferencial de juros elevado e início de ciclo de cortes continua favorável para ativos brasileiros no médio prazo. No curto prazo, o vetor de atenção dominante é a evolução do conflito no Oriente Médio, cujo impacto sobre o petróleo condiciona diretamente o espaço para novos cortes de juros. Em relação aos portfólios, seguimos com parcela relevante alocada em pós-fixados, que continuam se beneficiando do patamar ainda elevado da Selic. Prefixados curtos oferecem assimetria interessante para quem acredita na continuidade do ciclo de afrouxamento. Títulos IPCA+ de prazo mais longo mantêm juros reais historicamente elevados, representando oportunidade de alocação gradual conforme o cenário de convergência inflacionária se confirme.
No crédito privado, a abertura de spreads observada em março começa a criar pontos de entrada mais interessantes na margem. Seguimos priorizando duration mais curta, níveis de caixa mais elevados e maior seletividade de emissores, com foco em papéis que ofereçam compensação adequada pelo risco assumido.
Na renda variável local, mantemos preferência a setores com visibilidade de resultados, em especial Utilities, Energia e Financeiros, e preservamos liquidez para capturar oportunidades em eventual acomodação adicional dos preços.
No portfólio internacional, temos alterado marginalmente a preferência por tecnologia pura foi reduzida em favor de infraestrutura de data centers e semicondutores estratégicos, além de posições em ouro como proteção em cenário de aversão a risco persistente.
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Se quiser aprofundar algum dos temas discutidos, entender como essa leitura se traduz na alocação dos portfólios ou receber nossa apresentação mensal de estratégia, teremos prazer em conversar.
Abraços,
Leonardo Strambi, CFA Economista graduado pela PUC-RJ, MBA em Gestão de Investimentos pelo IAG/PUC-RJ, Gestor de Recursos CVM - CGA/CGE e CFA Charterholder, CFA Institute. Fundou a Austria Capital em 2017, onde atua como diretor de gestão. |
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