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O excepcionalismo americano reaparece

  • há 1 dia
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Atualizado: há 1 hora

Cenário & Alocação #18 | Julho 2026

A visão da Austria Capital sobre os mercados globais.


Clientes e amigos,


Junho foi o mês em que o alívio geopolítico começou a aparecer nos preços, mas sem apagar a instabilidade estrutural de fundo. O avanço nas negociações entre Estados Unidos e Irã devolveu parte do prêmio de risco embutido no petróleo, com o Brent recuando para níveis próximos aos anteriores ao conflito, movimento que ainda depende da reabertura efetiva do Estreito de Ormuz, processo que pode levar meses e cuja janela de negociação (a extensão do cessar-fogo de 60 dias entre EUA e Irã) vence em meados de agosto. Tudo indica que o Oriente Médio deve seguir como foco recorrente ao longo do segundo semestre, mesmo que os mercados sigam adiante.

Na frente comercial, a expiração das tarifas globais de 10% (Seção 122) em 24 de julho e sua provável substituição por tarifas da Seção 301 mantêm o comércio internacional em compasso de espera, com dezenas de parceiros comerciais dos EUA expostos a novas rodadas de tarifas. A cúpula da OTAN em Ankara (7-8 de julho) deve reforçar a agenda "OTAN 3.0" de maior responsabilidade europeia pela própria defesa, enquanto a distensão entre EUA e China segue como equilíbrio tático (guardrails políticos reduzem o risco de escalada abrupta, mas não revertem a tendência de mais restrições bilaterais, inclusive possíveis novas tarifas americanas sobre a China já em julho).

GRÁFICO: Mapa de risco de estabilidade governamental global, variação desde 2020 | Fonte: Deutsche Bank Research / Verisk Maplecroft

O fio condutor do mês, porém, esteve no dólar. Depois de meses em que o consenso apontava para moeda americana mais fraca e rotação de capital para fora dos Estados Unidos, junho reverteu essa leitura: o DXY subiu 2,30% e o real se desvalorizou 2,78% frente ao dólar. A curva de juros americana embutiu esse movimento. O mercado, que chegou a precificar três cortes do Fed para 2026, passou a projetar a possibilidade de uma alta adicional de juros, refletindo um Federal Reserve sob a nova gestão de Kevin Warsh que segue restritivo diante de um PCE ainda perto de 4%. Há hoje um debate relevante no mercado sobre até que ponto o Fed consegue, simultaneamente, controlar a inflação e viabilizar o refinanciamento da dívida pública americana sem pressionar ainda mais o dólar - um trade-off que deve seguir no radar ao longo do segundo semestre.

Mercados Globais

Apesar de o S&P 500 ter registrado queda de 1,06% em junho, o índice atingiu sua 23ª máxima histórica do ano ao longo do mês. No trimestre, acumulou alta de 14,8% e, no primeiro semestre, valorização de 9,54%, impulsionado principalmente pelo setor de tecnologia, em um ambiente em que o tema de inteligência artificial continua dominando o mercado.


No primeiro trimestre, o lucro das empresas do S&P 500 cresceu 27% em relação ao mesmo período do ano anterior, avanço concentrado quase integralmente nos setores de tecnologia e serviços de comunicação. Em outras palavras, trata-se de um mercado que continua avançando, mas sustentado por um grupo cada vez mais restrito de empresas.


Essa concentração é justamente a principal força, mas também o principal risco do cenário atual. As dez maiores companhias já representam cerca de 41% do S&P 500, enquanto os Estados Unidos respondem por aproximadamente 64% da capitalização do mercado acionário global. Em um contexto como esse, qualquer frustração relevante nas expectativas de investimentos em inteligência artificial (capex) pode rapidamente deixar de ser um evento restrito ao setor de tecnologia e passar a impactar o mercado como um todo.


Brasil - Renda Variável


O Ibovespa recuou 1,01% em junho e acumula alta de 6,84% no ano, mas o dado mais relevante não é o retorno em si, e sim a origem da pressão: saída de capital estrangeiro.

Por setor, Energia e Utilities foram os únicos com fluxo estrangeiro líquido positivo em junho (BRL 1,26 bi e BRL 0,58 bi, respectivamente), enquanto Financials (-BRL 3,75 bi), Consumer Staples (-BRL 2,45 bi) e Consumer Discretionary (-BRL 0,87 bi) lideraram as saídas. Vale um ponto de atenção: a performance do índice descolou do fluxo em junho. Utilities, Financials e Industrials foram os setores que mais contribuíram para o retorno do Ibovespa no mês, enquanto Energia, apesar de captar fluxo positivo, foi a maior detratora de performance (-136,6% de contribuição relativa). Isso sugere que parte do fluxo estrangeiro em Energia funcionou mais como acomodação de posição do que como aposta direcional vencedora no curtíssimo prazo.

GRÁFICO: Fluxo estrangeiro por setor em junho (BRL bi) | Fonte: Itaú BBA

Brasil - Renda Fixa e Crédito Privado


A peça doméstica mais relevante do mês não esteve na bolsa, e sim na curva de juros. O Copom entregou o corte de Selic esperado pelo mercado, mas a comunicação foi lida como confusa, e a curva reagiu com abertura acentuada nos vértices intermediários e longos - as NTN-B mais longas chegaram a ultrapassar 8% de juro real, movimento intenso o suficiente para levar o Tesouro Nacional a cancelar um leilão de NTN-B diante do nível elevado das taxas.


Embora o quadro fiscal permaneça preocupante, especialmente pela trajetória da dívida pública, pela estratégia do governo de concentrar o ajuste no aumento da arrecadação (leia-se incapacidade de cortar gastos) e pelo espaço cada vez menor para novas elevações de impostos, entendemos que a abertura recente das taxas longas foi desproporcional à deterioração dos fundamentos. Em nossa avaliação, predominou um movimento técnico de marcação a mercado, e não uma reprecificação do risco de crédito soberano. Após sucessivas perdas nos títulos prefixados e indexados à inflação, fundos e investidores institucionais reduziram exposição e migraram para ativos pós-fixados, intensificando a pressão vendedora sobre os vértices mais longos da curva e elevando ainda mais os prêmios exigidos pelo mercado. Esse movimento foi reforçado pelos efeitos da proposta de incidência de IOF sobre aportes em previdência privada, que desestimulou fortemente a captação desses veículos. Como os fundos de previdência figuram entre os principais compradores estruturais de NTN-Bs de longo prazo, a redução dos novos aportes diminuiu uma importante fonte de demanda justamente no segmento mais longo da curva, ampliando o desequilíbrio entre oferta e demanda e contribuindo para a abertura das taxas. Se estivéssemos diante de uma deterioração estrutural da percepção de solvência do país, seria razoável observar também uma desvalorização mais intensa do real, abertura expressiva do risco-país (CDS) e dificuldades mais evidentes nas emissões do Tesouro. Como esses sinais não se manifestaram na mesma intensidade, nossa leitura é que o movimento foi predominantemente técnico, ainda que tenha ocorrido sobre um pano de fundo fiscal desafiador.

Na última semana de junho, parte da abertura foi devolvida: o IPCA-15 do mês veio abaixo do esperado (+0,41%) e a queda do petróleo após o avanço das negociações EUA-Irã aliviou o prêmio de risco embutido nos vértices mais longos. Ainda assim, o alívio é parcial e o juro real se manteve acima de 8% nos vencimentos longos, a inflação acumulada em doze meses permanece acima do teto da meta, e o ambiente externo (PCE americano perto de 4%, Fed restritivo) mantém elevado o prêmio exigido para financiar mercados emergentes.

Perspectivas e Posicionamento

O tema que deve organizar a leitura de mercado no segundo semestre é a volta do excepcionalismo americano - não apenas como tese de Inteligência Artificial, mas como convergência de cinco fatores simultâneos nos Estados Unidos: maior crescimento entre as economias desenvolvidas, juros reais mais altos do mundo rico, mercado acionário mais líquido do planeta, liderança na corrida de IA e segurança jurídica de um mercado profundo. Essa combinação, se sustentada, tende a manter o dólar mais forte por mais tempo do que o consenso do início do ano previa - e esse é o principal ponto de atenção para carteiras brasileiras, que passaram bom parte do ano ancoradas na expectativa oposta.

Isso não significa abandonar a tese doméstica. O Brasil segue barato, com um dos maiores juros reais do mundo, e o estresse de marcação observado na curva longa parece mais técnico do que uma reavaliação de capacidade de pagamento do país. Mas a dependência exclusiva de um cenário de dólar fraco perdeu sustentação, especialmente enquanto o quadro fiscal e o calendário eleitoral mais competitivo seguem como freios à recomposição do fluxo estrangeiro para a bolsa local.

Os principais catalisadores a monitorar no curto prazo: a extensão (ou não) do cessar-fogo entre EUA e Irã em meados de agosto e seus efeitos sobre o petróleo; a substituição das tarifas da Seção 122 em 24 de julho; a reunião do Copom de agosto, que precisará validar um caminho de corte gradual sem recontaminar as expectativas de inflação longa; e a trajetória do Fed sob Kevin Warsh, equilibrando o controle da inflação doméstica com as necessidades de financiamento do Tesouro americano. Entre a força do excepcionalismo americano e o desconto persistente do Brasil, a carteira não precisa escolher um único lado, mas precisa estar preparada para o cenário em que o dólar volta a ser o ativo mais forte.


Leonardo Strambi, CFA

CFA Charterholder, Economista e Gestor de recursos, com foco em alocação global e gestão patrimonial.



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