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Brasil no ponto de inflexão

há 7 horas
5 min de leitura

Cenário & Alocação #20 | Setembro 2026

A visão da Austria Capital sobre os mercados globais.


Clientes e amigos,

No próximo domingo, 4 de outubro, o país vai às urnas no primeiro turno da eleição presidencial, o evento mais importante do ano para o mercado brasileiro. Entendemos que, a depender do resultado, ela pode ser o catalisador capaz de destravar a valorização dos ativos de risco no Brasil, em especial das ações. A seguir, resumimos nossa leitura do cenário global e doméstico e como ela se traduz nas carteiras administradas.

O ambiente externo segue complexo. As guerras no Oriente Médio e na Ucrânia provocaram um choque de oferta em energia: o Brent voltou a superar US$ 100 em setembro e o diesel bateu recorde nos Estados Unidos. A pressão chegou à inflação, e os principais bancos centrais voltaram a subir juros: o Fed elevou sua taxa pela primeira vez desde 2023, acompanhado pelo Banco Central Europeu e pelo Banco do Japão. Ao mesmo tempo, dívidas públicas crescentes dos governos de países desenvolvidos exigem emissões cada vez maiores, e o ciclo de investimentos em inteligência artificial, financiado em boa parte com dívida e ainda com retorno incerto, disputa o mesmo capital que o Tesouro dos EUA. O resultado é um mercado que cobra mais para emprestar a prazos longos: o título norte-americano de dez anos está perto do maior nível desde 2007. Somado ao questionamento sobre a credibilidade das instituições norte-americanas, que estimula a busca por outras reservas de valor além do dólar, esse quadro, em nossa avaliação, tende a levar o investidor global a diversificar para fora dos Estados Unidos. Parte desses recursos pode chegar a emergentes como o Brasil, onde, pela menor profundidade dos mercados, mesmo uma realocação marginal tem potencial relevante de impacto nos preços.

No Brasil, os juros estão em patamar altamente restritivo há muito tempo. Mesmo após cinco cortes, a Selic está em 13,75% e o país mantém o maior juro real do mundo. A política monetária perde eficácia quando atua contra uma política fiscal expansionista: é um pé no freio e outro no acelerador. O fiscal é, a nosso ver, o centro do problema. Apesar da arrecadação recorde, a dívida segue em alta, reflexo de anos seguidos de aumento de gastos, e o arcabouço fiscal perdeu credibilidade. O mercado responde exigindo mais prêmio nos juros longos. Os efeitos já aparecem na economia real: endividamento e comprometimento de renda das famílias estão nos maiores níveis da série do Banco Central, e os pedidos de recuperação judicial atingiram número recorde, alcançando inclusive grandes empresas. Os indicadores mostram que a atividade desacelera, e os economistas vêm reduzindo as projeções de crescimento do PIB para mais perto de 1% em 2027.

Ainda assim, o Brasil reúne ativos que ganham valor em um mundo instável: minerais críticos e petróleo, estratégicos na disputa geopolítica; uma matriz elétrica 87% renovável, que o credencia a receber data centers; a condição de potência em alimentos; distância dos principais conflitos; e solidez externa, já que nosso problema é fiscal, não de balanço de pagamentos. Isso faz do país um candidato natural a receber capital de longo prazo, desde que a questão fiscal seja endereçada.

É por isso que a eleição importa tanto. As pesquisas mostram empate técnico no segundo turno, com o candidato da oposição avançando nas últimas semanas e já numericamente à frente em parte dos levantamentos. Há fatores que as pesquisas captam mal: a abstenção costuma ser maior entre eleitores de menor escolaridade e renda, segmento em que o presidente tem mais vantagem, e o “antipetismo de chegada” tende a aparecer só no dia da votação. Esperamos também que a oposição receba o apoio da maioria dos demais candidatos e capture cerca de dois terços dos votos transferíveis. A avaliação do governo, por sua vez, não apresenta sinais de melhora e tem atualmente saldo negativo, apesar das medidas de apelo popular recentes. A amostra é pequena, mas todos os presidentes reeleitos desde 1998 chegaram à reta final com saldo positivo; o único que chegou com saldo negativo, em 2022, perdeu. Vemos, portanto, uma disputa acirrada, mas com maior probabilidade de vitória da oposição. Uma sinalização crível de um plano que estabilize a dívida tende a comprimir de forma relevante o prêmio fiscal e reduzir estruturalmente os juros longos, o que pode destravar uma forte valorização dos ativos brasileiros.

A bolsa é onde essa assimetria nos parece mais clara. Os juros altos comprimiram os múltiplos, e muitas empresas de qualidade negociam a preços atrativos, entregando lucros e dividendos elevados mesmo com a Selic perto de 14%. O posicionamento é leve: a alocação da pessoa física está perto das mínimas, enquanto os institucionais locais sofrem com resgates e acumulam vendas líquidas de ações. A renda fixa, com juros tão elevados, concentra o patrimônio do investidor local, e o estrangeiro ainda está pouco exposto ao país. A queda dos juros é o principal catalisador e atua por três canais: reduz a taxa de desconto dos fluxos de caixa futuros, alivia a despesa financeira das empresas e desloca recursos da renda fixa para a bolsa. Um fator técnico pode amplificar o movimento: com fechamentos de capital, ausência de IPOs e recompras por parte das empresas, há menos ações em circulação, e uma retomada do fluxo tende a gerar reprecificação mais rápida do que em ciclos anteriores. Os mais sensíveis à queda dos juros são as empresas domésticas e as chamadas “bond proxies”, ações que se comportam de forma parecida com a renda fixa. Com preços já deprimidos, o potencial de alta nos parece superar o de queda.

O mercado costuma antecipar grandes eventos, precificando probabilidades antes que as medidas saiam do papel. Esperar a confirmação do resultado costuma significar pagar mais caro por ela. Por isso, nossa visão sobre a bolsa brasileira é construtiva. O ponto de partida nos parece particularmente favorável: valuations deprimidos, posicionamento leve entre pessoas físicas, institucionais e estrangeiros, e uma base de ações em circulação mais estreita. É uma combinação em que o gatilho certo pode gerar uma reprecificação rápida e relevante. Some-se a isso o movimento global de diversificação para fora dos Estados Unidos, que pode trazer ao país um fluxo capaz de mover preços de forma desproporcional.

Otimismo, porém, não significa exposição indiscriminada. Por se tratar de um evento binário, seletividade e diversificação são essenciais. Privilegiamos empresas com baixa alavancagem, vantagens competitivas claras, boa governança, rentabilidade resiliente, geração de caixa consistente, valuation atrativo e boa liquidez. Vemos o maior potencial em utilities (energia elétrica e saneamento) e no setor financeiro (bancos e mercado de capitais), que combinam solidez com valor relevante a ser destravado. Também vemos oportunidades em empresas domésticas líderes em varejo, construção civil, shoppings e saúde, que apresentam crescimento recorrente de receita e lucro, baixo endividamento e, em muitos casos, bom histórico de dividendos.

Depois de anos em que a renda fixa concentrou o patrimônio do investidor brasileiro, acreditamos que a bolsa pode estar se aproximando de um ponto de inflexão.

Obrigado pela leitura.


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